Fee fixo e/ou Comissão: A Reforma Tributária está mudando a forma de cobrar e precificar os serviços por assessorias e consultorias de investimentos

Fábio Martins
Fábio Martins

26 de março de 2026 · 4 min de leitura

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Fee fixo e/ou Comissão: A Reforma Tributária está mudando a forma de cobrar e precificar os serviços por assessorias e consultorias de investimentos

A Reforma Tributária, consolidada pela Emenda Constitucional 132/2023 e regulamentada pela Lei Complementar 214/2025, não impacta apenas a carga tributária das empresas do mercado financeiro.

Ela altera, de forma estrutural, a maneira como essas empresas devem formar seus preços, calcular margens e estruturar seus modelos de receita.

No novo cenário, precificar serviços financeiros sem considerar a dinâmica da CBS e do IBS pode levar a uma distorção relevante de rentabilidade.

A pergunta de antes:

“Qual é a minha taxa ou fee?”

A de hoje em dia:

“Qual é a rentabilidade real dessa operação depois da nova lógica tributária?”

A mudança de lógica: de mark-up para estrutura financeira

Hoje, grande parte das empresas do mercado financeiro precifica seus serviços com base em:

  • percentual sobre ativos (AUM)

  • comissões de distribuição

  • fees fixos ou recorrentes

  • benchmarks de mercado

Com a reforma, essa lógica precisa evoluir.

A introdução do modelo de IVA (CBS + IBS) traz dois elementos críticos:

  • impacto direto no custo efetivo do serviço

  • possibilidade (ou limitação) de créditos tributários

Ou seja, a precificação passa a depender de uma análise mais profunda da estrutura financeira da operação, e não apenas de posicionamento comercial.

1. A tributação passa a afetar diretamente a margem, não só o faturamento

No modelo atual, a depender da natureza da atividade e do regime aplicável, muitas empresas analisam o impacto tributário de forma simplificada:

  • faturamento

  • alíquota

  • imposto devido

Com a reforma, isso muda.

A não cumulatividade faz com que o imposto incida sobre o valor agregado, o que exige uma leitura mais precisa da margem.

Na prática:

  • receitas com estruturas diferentes terão impactos tributários distintos

  • operações com maior custo podem gerar créditos

  • operações mais enxutas podem ter maior carga efetiva

Isso é especialmente relevante para:

  • consultorias financeiras

  • gestoras independentes

  • estruturas com alto valor agregado e baixo custo operacional

A consequência direta é que duas empresas com o mesmo faturamento podem ter margens líquidas completamente diferentes.

2. O modelo de receita influencia diretamente o resultado

Empresas do mercado financeiro costumam operar com diferentes formatos de receita:

  • comissão (rebate)

  • fee fixo

  • fee sobre performance

  • taxa sobre patrimônio (AUM)

Com a reforma, o impacto tributário pode variar entre esses modelos, afetando a precificação ideal.

Por exemplo:

  • receitas recorrentes podem ter previsibilidade de caixa, mas impacto contínuo de tributos

  • receitas variáveis podem concentrar carga tributária em determinados períodos

  • estruturas híbridas exigem controle mais sofisticado

Isso exige uma revisão estratégica:

Qual modelo de receita é mais eficiente não apenas comercialmente, mas financeiramente?

3. A formação de preço passa a exigir visão de custo + crédito tributário

Um dos pilares da reforma é a possibilidade de crédito sobre insumos e despesas.

No entanto, no mercado financeiro, esse ponto exige atenção.

Nem todos os gastos geram crédito relevante, especialmente em estruturas mais leves, como:

  • assessorias com baixa estrutura operacional

  • consultorias com poucos insumos tributáveis

  • empresas com forte dependência de capital humano

Isso pode gerar um efeito importante:

  • empresas com pouca estrutura de custos tendem a ter menos créditos

  • e, consequentemente, maior carga efetiva

Na prática, isso impacta diretamente o preço:

  • margens precisam ser recalculadas

  • preços podem precisar ser ajustados

  • ou a estrutura de custos precisa ser revista

4. A precificação passa a depender do fluxo de caixa

Um ponto frequentemente negligenciado na formação de preços é o impacto no caixa.

Com a reforma, isso se torna crítico.

A empresa pode:

  • gerar receita

  • ter incidência de CBS e IBS

  • e não ter recebido ainda

Isso significa que a precificação precisa considerar:

  • prazo médio de recebimento

  • impacto tributário no curto prazo

  • necessidade de capital de giro

  • Empresas que ignorarem esse fator podem ter operações aparentemente lucrativas, mas com pressão de caixa.

    5. A comparação com o regime atual pode gerar decisões equivocadas

    Um erro comum na análise da reforma é tentar comparar diretamente:

    • “quanto pago hoje” vs “quanto vou pagar depois”

    Sem considerar:

    • créditos tributários

    • estrutura de custos

    • modelo de receita

    • impacto financeiro

    No mercado financeiro, isso é ainda mais sensível, pois:

    • margens são altamente dependentes de estrutura

    • receitas podem ser voláteis

    • e o custo fixo pode ser relativamente baixo

    A decisão de preço precisa ser baseada em simulação financeira completa, e não apenas em alíquota.

    O que assessorias, consultorias e gestoras precisam fazer agora

    A preparação para a nova realidade não é só tributária — é também financeira.

    Alguns movimentos são essenciais:

    1. Revisar a estrutura de receitas Entender o impacto de cada tipo de fee na rentabilidade.

    2. Mapear custos e potenciais créditos Identificar onde há eficiência ou perda tributária.

    3. Recalcular margens por produto ou serviço Evitar distorções na precificação.

    4. Incorporar o fluxo de caixa na formação de preço Considerar o efeito financeiro, não apenas contábil.

    5. Simular cenários Avaliar diferentes estruturas antes da transição completa.

    Conclusão

    A Reforma Tributária exige uma mudança de mentalidade.

    Para empresas do mercado financeiro, o desafio não será apenas entender a nova legislação, mas adaptar a forma como precificam seus serviços.

    O preço deixa de ser apenas uma decisão de mercado.

    Ele passa a ser uma decisão estratégica, baseada em:

    • estrutura de custos

    • modelo de receita

    • fluxo de caixa

    • e eficiência financeira

    No novo cenário, não basta cobrar bem.

    É preciso saber quanto realmente sobra.

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    Fábio Martins

    Sobre o autor

    Fábio Martins

    Sócio Veritas Financeiro | Head Financeiro

    Especialista em gestão financeira e BPO, atua com caixa, DRE, margens e indicadores para empresas do mercado financeiro.

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