Simples Nacional terá de decidir sobre IBS e CBS até setembro: o que muda para empresas do mercado financeiro
07 de abril de 2026 · 4 min de leitura

Para empresas do mercado financeiro enquadradas no Simples Nacional, a decisão sobre recolher CBS e IBS “por fora” do DAS tende a ser menos burocrática do que parece. Na prática, ela pode mexer com preço, caixa, crédito tributário e posicionamento comercial diante de clientes pessoa jurídica.
A discussão sobre reforma tributária costuma começar pelo jurídico-tributário, mas não termina ali. No caso dos optantes do Simples Nacional, o novo desenho criou duas possibilidades: manter o recolhimento unificado no regime simplificado ou apurar IBS e CBS pelo regime regular, separadamente, preservando no DAS os demais tributos abrangidos pelo Simples. A legislação também estabeleceu que essa escolha será feita por semestre, de forma irretratável em cada período, com exercício nos meses de setembro e março imediatamente anteriores. Para 2027, a opção relevante precisará ser feita em setembro de 2026.
O que muda, de fato, com o regime híbrido
No modelo híbrido, o escritório continua no Simples para parte da tributação, mas IBS e CBS passam a seguir a lógica do regime regular. É isso que abre espaço para creditamento nas aquisições vinculadas à atividade e também para transferência de créditos ao adquirente pessoa jurídica. Em outras palavras, o tema deixa de ser apenas “quanto imposto pagar” e passa a envolver também como o escritório se posiciona em uma cadeia B2B na qual o aproveitamento de créditos pode influenciar a decisão do cliente.
Para assessorias e consultorias de investimentos, esse ponto merece atenção especial. Muitos escritórios operam em ambiente fortemente relacional, com contratos recorrentes, prestação de serviços a pessoas jurídicas e necessidade crescente de defender preço com lógica econômica, e não apenas comercial. Nesse contexto, a possibilidade de gerar e transferir créditos pode alterar a percepção de custo do contratante, enquanto a permanência integral no modelo unificado pode, em alguns cenários, reduzir a atratividade da estrutura perante clientes corporativos. Essa é uma inferência de mercado apoiada na lógica da não cumulatividade e no desenho competitivo apontado pela própria cobertura sobre o tema.
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O impacto não para no fiscal: ele chega ao caixa e à margem
A escolha entre permanecer integralmente no Simples ou migrar IBS e CBS para o regime regular tende a afetar quatro frentes sensíveis da operação: fluxo de caixa, formação de preço, margem e rotina financeira. A própria matéria do Contábeis chama atenção para esse efeito prático. E isso faz sentido. Quando a lógica tributária muda, muda junto a forma de precificar, projetar repasses, organizar o contas a receber e avaliar o efeito econômico da carteira de clientes.
O escritório que tratar o tema apenas como cumprimento fiscal corre o risco de decidir mal. A reforma empurra a discussão para um nível mais maduro de gestão. Será preciso comparar perfil de clientes, estrutura de custos, cadeia de fornecedores, capacidade de repasse, sensibilidade de margem e impacto financeiro sem cair em conclusões automáticas. Nem todo escritório no Simples terá incentivo econômico para o regime híbrido, mas ignorar a análise também pode sair caro.
Para consultorias de investimentos ou grupos de assessorias que operam com uma PJ2 que se encontram no Simples Nacional, a urgência não está apenas em “decidir” pelo regime híbrido até setembro de 2026. A urgência está em chegar a setembro com o planejamento tributário feito, operação mapeada e premissas revisadas. Isso porque 2026 já é o ano de teste da CBS e do IBS, com novas obrigações acessórias, destaque em documentos fiscais e adaptação de layouts. Esperar a regulamentação fina ou deixar a análise para o segundo semestre pode empurrar a decisão para um momento em que o escritório já deveria estar com preço, fluxo financeiro e modelagem operacional minimamente ajustados.
2026 já exige preparação, mesmo sendo ano de teste
Outro ponto que merece enquadramento editorial é o calendário. Oficialmente, 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS. A Receita Federal informa que, desde 1º de janeiro de 2026, os contribuintes já devem observar obrigações acessórias e emitir documentos fiscais com destaque dos novos tributos, e esclarece que, cumpridas as normas aplicáveis, o recolhimento de IBS e CBS fica dispensado nesse período de teste. O Ministério da Fazenda e o Comitê Gestor do IBS também reforçaram a lógica de adaptação gradual e ausência de penalidades por um período inicial após a publicação dos regulamentos.
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Ver materialIsso significa que o prazo de setembro de 2026 não deve ser lido como um marco isolado. Ele é, na prática, o ponto de chegada de um ano que já exige leitura técnica, revisão de processos e simulação de cenários. O meio formal de opção ainda depende de regulamentação operacional mais detalhada, mas a necessidade de análise já está posta. Esperar a “virada da chave” para começar a estudar pode fazer o escritório decidir sob pressão.
Conclusão
O regime híbrido do Simples não deve ser tratado como curiosidade tributária. Para assessorias e consultorias de investimentos, ele pode se tornar uma decisão de posicionamento. Dependendo da base de clientes e da lógica comercial do escritório, escolher bem pode melhorar competitividade e previsibilidade. Escolher mal, ou simplesmente não analisar, pode pressionar preço, margem e eficiência operacional justamente no momento em que o mercado exige mais profissionalização. A reforma, aqui, não está testando apenas a área fiscal. Ela está testando a maturidade de gestão do escritório.
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Sobre o autor
Michel Bueno
Sócio Veritas Contabilidade | Head de Contabilidade | Tributarista
Economista e contador, lidera a frente contábil da Veritas com foco em tributação e Reforma Tributária aplicada ao mercado financeiro.
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