A carteira recomendada como conhecemos pode estar com os dias contados
Direct indexing, inteligência artificial e dados começam a transformar a personalização de carteiras em escala — e podem mudar a forma como assessorias constroem valor para seus clientes.
08 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Direct indexing, inteligência artificial e personalização em escala começam a mudar uma das lógicas mais tradicionais da indústria de investimentos: a ideia de que milhares de investidores diferentes devem receber estruturas de portfólio semelhantes.
Durante décadas, boa parte da indústria de investimentos foi construída sobre uma lógica simples: criar soluções para grupos de investidores. Fundos, ETFs, carteiras recomendadas e classificações como conservador, moderado e arrojado ajudaram o mercado a ganhar escala e distribuir investimentos para milhões de pessoas.
Mesmo quando existe algum grau de personalização, o ponto de partida ainda costuma ser uma estrutura previamente definida e depois adaptada ao cliente. Mas uma tendência que avança rapidamente no mercado internacional começa a desafiar essa lógica: o direct indexing.
Mais importante do que o produto em si é o que ele representa. Estamos começando a sair de uma indústria baseada em carteiras padronizadas para um modelo em que a tecnologia permite criar portfólios individualizados em escala.
No modelo tradicional, um investidor compra um ETF que replica determinado índice. No direct indexing, ele pode deter diretamente uma seleção dos ativos que compõem esse índice e personalizar a carteira de acordo com suas próprias características.
Isso permite considerar questões tributárias, ativos já existentes, exposições excessivas, setores que deseja evitar, preferências pessoais e diferentes restrições patrimoniais. O resultado é simples: dois investidores com objetivos semelhantes podem terminar com portfólios completamente diferentes.
E isso está deixando de ser uma estratégia de nicho.
Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 pela FTSE Russell com 400 financial advisors nos Estados Unidos mostrou que 41% já utilizam direct indexing, contra 33% no ano anterior. Entre os profissionais que ainda não utilizam a estratégia, 42% afirmam que pretendem adotá-la nos próximos 12 meses.
Outro dado ajuda a dimensionar essa mudança: 82% dos advisors pesquisados acreditam que o direct indexing oferece um nível de personalização que ETFs e fundos tradicionais não conseguem entregar.
A questão, portanto, não é se fundos ou ETFs vão desaparecer. Eles continuarão sendo extremamente relevantes pela eficiência, liquidez e escala que proporcionam.
A discussão é outra.
Se a tecnologia consegue construir, rebalancear e acompanhar milhares de portfólios individualizados simultaneamente, até onde continuará fazendo sentido entregar exatamente a mesma carteira para milhares de investidores diferentes?
A indústria financeira sempre dependeu de escala. Um fundo pode atender milhares de investidores. Um ETF pode atender milhões. Uma carteira recomendada pode ser distribuída para uma base inteira de clientes ao mesmo tempo.
Agora, tecnologia, automação e inteligência artificial começam a tornar economicamente possível algo que antes era reservado a clientes de altíssimo patrimônio: a personalização em larga escala.
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O patrimônio administrado por estratégias de direct indexing, estimado em aproximadamente US$ 865 bilhões ao final de 2024, pode superar US$ 2 trilhões até 2028. Mais do que o tamanho desse mercado, o que chama atenção é a velocidade com que o comportamento dos advisors está mudando.
Essa transformação também pode alterar a própria competição entre instituições financeiras.
Durante muito tempo, bancos, corretoras e plataformas competiram principalmente por produto. Quem oferecia o melhor fundo, a melhor renda fixa, a melhor plataforma ou acesso a determinada oportunidade possuía uma vantagem relevante.
Com o avanço da arquitetura aberta, essa diferenciação diminuiu. Os mesmos produtos passaram a estar disponíveis em várias instituições.
A próxima fronteira pode ser a personalização.
A pergunta deixa de ser apenas “qual ativo devemos comprar?” e passa a ser “qual estrutura de patrimônio faz sentido para este cliente específico?”.
Isso muda bastante a análise.
Um empresário pode ter grande parte de sua riqueza concentrada na própria empresa. Um executivo pode receber ações da companhia em que trabalha. Uma família pode possuir imóveis, participações societárias e patrimônio no exterior. Outro investidor pode ter necessidades tributárias ou de liquidez completamente diferentes.
Todos poderiam ser classificados como “moderados”. Isso não significa que deveriam ter a mesma carteira.
É justamente essa diferença que a tecnologia começa a tornar administrável em escala.
A inteligência artificial tende a acelerar ainda mais esse processo. Na pesquisa da FTSE Russell, 83% dos advisors afirmaram acreditar que os avanços em IA vão impulsionar o crescimento do direct indexing.
Imagine uma estrutura capaz de analisar simultaneamente patrimônio, posição tributária, carteira atual, concentração, exposição internacional, liquidez, objetivos e restrições do investidor. A partir dessas informações, a tecnologia poderia ajudar a construir e atualizar uma estratégia individual de forma contínua.
Nesse cenário, a distância entre uma simples carteira recomendada e uma verdadeira arquitetura patrimonial aumenta significativamente.
E isso não significa necessariamente uma redução da importância do assessor.
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Quanto mais sofisticada e personalizada se torna a solução financeira, maior a necessidade de compreender o contexto do cliente. Um algoritmo pode ajudar a otimizar uma carteira, mas ainda é preciso entender por que aquele patrimônio existe, quais são os objetivos da família, qual risco realmente importa e quais decisões fazem sentido naquele momento.
A própria pesquisa da FTSE Russell encontrou um sinal interessante: 83% dos advisors que utilizam direct indexing dizem que a estratégia ajuda a fortalecer o relacionamento com clientes de alta renda.
Tecnologia e relacionamento, portanto, não precisam estar em lados opostos.
A tecnologia pode assumir parte da complexidade operacional e permitir que o profissional concentre sua atuação justamente onde existe maior valor: compreender o cliente e ajudá-lo a tomar decisões melhores.
No Brasil, o direct indexing ainda pode levar tempo para alcançar a escala observada nos Estados Unidos. Existem diferenças tributárias, regulatórias, tecnológicas e estruturais relevantes.
Mas talvez olhar apenas para o produto seja perder o principal sinal.
A transformação maior já está acontecendo.
Estamos caminhando de produtos padronizados para personalização. De perfil de investidor para contexto patrimonial. De carteira recomendada para arquitetura de patrimônio.
Se tecnologia, dados e inteligência artificial tornarem essa personalização viável em larga escala, uma das perguntas mais tradicionais do mercado também pode mudar.
Em vez de perguntar “qual carteira devemos recomendar?”, as assessorias talvez precisem começar a perguntar:
quanto realmente conhecemos sobre o patrimônio deste cliente?
Porque, no próximo estágio do wealth management, a vantagem competitiva talvez não esteja em ter a melhor carteira recomendada.
Pode estar justamente em não existir uma carteira igual à outra.
Sobre o autor
Anderson Timm
Fundador e CEO da Veritas
Fundador e CEO da Veritas, acompanha estratégia, M&A, valuation e wealth management no mercado de investimentos.
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